quinta-feira, janeiro 10, 2008

Gravando!

Luz, câmera...

Uma senhora negra e descomposta aparece na telona. Ela fala coisas banais... ou não.

- Mãe! Mãe! Olha o trem! Olha o trem, mãe!
- Piuí, tic tac! - Faz a mãe com um sorriso arrancado do pouco de vida que parece ainda ter nela
- Piuiii, tic tac! Piuiiii, tic tac! Piuiii, tic tac! - repete a menina, e o menino, e o outro menino.

Os três filhos (incrivelmente, todos parecem ter a mesma idade) fazem côro:

- Olha o trem! Piuiii, tic tac! Tchau, trem! Tchau, trem!
- Mãe! Compra o DVD do trenzinho? - pergunta a menina
- É, o do trenzinho e o do ratinho - acrescenta o menino da direita
- Tá, a mãe compra... a mãe compra

"A mãe compra", dizia ela acariciando a barriga de já quatro meses de espera.

- A mãe compra, tá?! Agora senta aqui e fica bonzinho!

"Bom, agora me diz como foi que vc preparou esse personagem?". A pergunta e o filme são de Eduardo Coutinho. A história? Nem passou por ele. Mas poderia ter passado. É mais uma daquelas coisas geniais com que a vida te brinda num ônibus a caminho para o trabalho. Coisas geniais, tocantes e - por que não? - cinematograficamente dramáticas!

Assistir a "Jogo de Cena" me fez dar graças porque alguém percebe isso! Há uma sutileza cinematográfica na vida! Na história que cada um insiste em querer contar e nas histórias com as quais a gente vai esbarrar se olhar por lados só um pouquinho. É isso! Já sei o que eu quero ser quando crescer!

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